6 de abril de 2009

No cais, ao entardecer


foto: J. T.

O cais ao entardecer,

Espero eu viver,

Para o ver outonal

Naquela tarde de Outubro.

*

Naquela tarde de Outubro

Os rios cruzaram-se com os mares

E nasceu um rio cinzento

(Vogava como vento!)

Que brotou de teus olhos despidos.

*

E ainda me revejo nessa tarde

A olhar para os teus cabelos

Caídos no leito do Tejo,

E a contar uma história sibilante

Às gaivotas que partiam para sul.

Manuel Cruz Bucho, 9.º A

2 de abril de 2009

Bebido o luar, ébrios de horizonte

http://www.baixaki.com.br/imagens/wpapers/BXK13977_arcoiris2800.jpg

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

24 de março de 2009

Trem de ferro


Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô…
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô…
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô…
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô…
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô…

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente…

(Tom Jobim e Manuel Bandeira in “Estrela da Manhã” 1936)







Postado por tbordignon@bol.com.br

18 de março de 2009

Poesia Jovem - As lágrimas

(Imagem retirada da net, via Google)

As tuas lágrimas
São belas como os teus olhos…
A rolar pelas tuas faces
E a cair no chão duro
Como a maldade.

Por que choras?
Porque eu também choro…
Por que amas?
Porque também te amo…
Porque nos amamos os dois!


Sara Matos, 7º B

16 de março de 2009

Os amantes sem dinheiro, Eugénio de ANDRADE



Os amantes sem dinheiro
Tinham o rosto aberto a quem passava.

Tinham lendas e mitos

e frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava

de mãos dadas com a água

e um anjo de pedra por irmão.

*
Tinham como toda a gente

o milagre de cada dia

escorrendo pelos telhados;

e olhos de oiro

onde ardiamos

sonhos mais tresmalhados.

*
Tinham fome e sede como os bichos,

e silêncio

à roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam

um pássaro nascia dos seus dedos

e deslumbrado penetrava nos espaços.