24 de julho de 2010

Estás Vivo!


A vida é tão simples. Tão igual para todos. Não há pessoas diferentes, não há heróis nem famosos que se distingam dos pobres e imperceptíveis. Todos erramos. Todos sofremos. Todos temos uma vida nas mãos. O maior peso e responsabilidade que nos deram logo no primeiro sopro. Depende sim de nós cuidar de cada pedaço que nos foi concebido. Dar sabor à vida, cor e sentido. Não basta carrega-la as costas e suportar uma tonelada de mal entendidos. O corpo é tão frágil. O coração é tão sensível. Assume que erraste, chora e sofre. Aprende a perdoar na altura certa, acredita, a altura certa existe. Quando a dor que sentes é tão grande e insuportável que a queres arrancar de ti a todo o custo. O momento certo é quando precisas de te sentir bem. Se perdoaste e não o devias ter feito, deixa, a vida encarregar-se-á de to mostrar. Tudo acontece por uma razão. A razão da pura existência de ser humanos que se auto mutilam com actos irresponsáveis e mal pensados. Não és mais fraco porque cedeste, porque acreditaste. Se não acreditares a vida deixa de fazer sentido. Se depois de sofreres, voltaste a sofrer, não te arrependas do sim em vez do não. Fazemos tudo em função do nosso bem-estar. Por vezes deveríamos usar muito mais a cabeça, evitando o sofrimento. Mas muitas vezes a cabeça apodera-se do sentimento. Sentes que não merecias, talvez tenhas razão, mas mesmo assim perdoaram-te. Dá valor aos que te seguram a mão e te mostram o caminho certo. Se optares pelo errado, mais tarde saberás. A decisão é tua. Os outros falam, os outros pensam, mas és tu que sentes. Quando és tu que choras, quando és tu que te debruças sobre uma cama procurando solução. As soluções surgem sempre, por mais difíceis ou inconscientes. O que importa é que tudo tem explicação. Sabes ouvi-la? Escuta a vida, ela fala contigo todos os dias. Todos os dias aprendes. Veste a roupa que tanto gostas e bota o perfume mais caro que guardaste para aquele dia. Vai à luta, mesmo que tropeces ou te magoes. Se não arriscares nunca saberás. Amanhã nada te garante que o teu sopro de vida não acabará. Sai de casa, bebe um shot, diz aos teus melhores amigos que os adoras, diz aquele que te completa o quanto o amas, agradece aos teus pais, bate palmas e salta. Estás vivo.
Creta, Kato Gouves, 2008

Autora: Adriana Lopes

11 de julho de 2010

Leitura Crítica

Inês Pedrosa e os homens

Não é hábito meu fazer criticas publicamente a livros, pelo simples facto de não me achar com competências para tal. No entanto, dar a minha opinião fundamentada não me parece de mau gosto.
Comprei um livro da Inês Pedrosa chamado Íntimos. Não conheço o trabalho da autora, mas o nome dela remeteu-me imediatamente para a Margarida Rebelo Pinto. A sinopse do livro falava sobre a visão dos homens em relação às mulheres e tudo bem, eu aceitei e achei, inclusivamente, que poderia ser interessante. Não só por nos dar a conhecer o ponto de vista dos homens, mas também por nos dar a conhecer o ponto de vista dos homens através de uma mulher. Eu devia saber, logo à partida, que isso era biologicamente impossível, que o sentido feminista de uma mulher é sempre irreversível, tanto mais quando a mesma se tenta afastar dele. Enfim, por alguma razão eu deixei-me inebriar pelo que li e pelo que vi. A capa do livro desperta qualquer coisa de sensual e eu que já devia saber que não se julga um livro pela capa. A Emma Bovary era bem mais sensual que todas as palavras da tal Inês Pedrosa, e no entanto esse clássico do Flaubert tem tudo menos uma capa sensual...
Entretanto, para não me dispersar, li o livro de um dia para o outro, o que permite que compreendam a nula complexidade da narrativa. A história não é envolvente, é só um seguimento de palavras que ficam bem umas com as outras, numa visão extremamente feminista e irreal daquilo que os homens de facto pensam (não é que eu saiba o que é que pensam, mas não é certamente aquilo). 
Voltando à Margarida Rebelo Pinto, da qual li várias obras no auge dos meus catorze anos, posso-vos garantir que não podia estar mais certa quando a associei à Inês Pedrosa. Generalizando e falando de ambas como um ser só (porque afinal a escrita delas encontra-se ao mesmo nível), o que eu posso concluir é que o objectivo dos livros é única e exclusivamente dizer às mulheres aquilo que elas querem ouvir. É assassinar o vocabulário para desperdiça-lo em lógicas básicas, captando o mais primitivo do pensamento de uma mulher. Se era suposto ser dramático e sensual, não é. É todo um facilitismo de relações, os sentimentos complexos de que as personagens sofrem não coincidem com a forma mundana com que lidam com eles. A sensação com que fico é que os sentimentos e as acções são duas coisas distintas, como por exemplo um pinguim e um bule de chá.
Basicamente, para mim acabou-se Inês Pedrosa, os "Íntimos" dela não me encheram as medidas e entre nós houve apenas um olá muito sumido, por uma questão de boa educação. 
Sara Raminhos






27 de junho de 2010

Invocação à Noite


Remédios Varo




Ó deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes:

Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Ritália melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem d'amor os sôfregos instantes:

Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!

Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire
Nas ternas ânsias, no inefável gosto.

Bocage

14 de junho de 2010

Na despedida






Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...




Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...



Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...



Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...



Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!



A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...



Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...



Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...



Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!



Vinícius de Moraes

6 de junho de 2010

Leitura de Praia - sugestão

«Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem para dizer, não ter medo de dizer não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem dúvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a fazer.
E mesmo que a voz trema por dentro, há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se ouça o coração bater desordeiramente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido, e esperar, esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade.
Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer: aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um Deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que a vontade de mudar é sempre mais forte, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de a transformar numa recordação ténue e fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e a sua época e que um dia também teve o seu fim.
Às vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito. Somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor.
Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo a baixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda-fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.
Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer."


Margarida Rebelo Pinto

31 de maio de 2010

Dele para o Céu




Dá-me beijos de carinho,
E mil desejos te peço que me proponhas
Vamos dar as mãos
Como fazem os apaixonados
Se os teus olhos eu decifrar,
Como se decifra o frio de um gélido momento de fé
Uma fé que não me leva até ti
Quero que a distancia entre nos seja menos que o tamanho
Da borboleta que voa entre flores e flores
Este contracto que fizemos
Que abaixo das barreiras do amor foi criado
No momento em que o fizemos,
O amor também floresceu
No entanto sei que não és meu

Que céu distante, beija-me
Não te afastes do único que entre cósmicos universos
Encontrarás para te amar
Solta esse beijo que é filho dos teus desejos
Como fazem os apaixonados
Dá-me a mão
Serve-me com o teu coração
Por favor, Ama-me
Céu distante

Vagueamos lado a lado
Afastados por uma barreira negra de tristeza
Toca-me como fazem os apaixonados
Um caminho que eu trilhei só para ti
Promessa infernal,
Que foi criada antes das barreiras do amor
Preferia que tivesse sido feito dentro dessas muralhas amorosas
E que este laço fosse mais forte que apenas um contracto vingativo
Basta dizeres, que eu faço
Naquela noite, disseste para eu ficar do teu lado
Até a escura noite chegar
A tua tristeza era um mar
E dentro da minha eterna solidão respondi
“ Ficarei sempre ao teu lado, até tu dormires”
Imortalidade esta que me massacra
Ter de ver o céu cair e estremecer, enquanto eu,
Do fundo de outro sonho ou planeta
O vejo despenhar-se em morte e palidez



Que vil dor me destrói a natureza
Já fui assassino de mil
Não me deixei apanhar por este sentimento
Devorador de solidão
Mas tu Céu, que me despedaças e renegas
Enganando-te a ti próprio e aos demais
Como um simples sorriso
Um momento de prazer lento
Cura-me desta loucura,
Beija-me  como os apaixonados fazem



Que céu distante, beija-me
Não te afastes do único que entre cósmicos universos
Encontrarás para te amar
Solta esse beijo que é filho dos teus desejos
Como fazem os apaixonados
Dá-me a mão
Serve-me com o teu coração
Por favor, Ama-me
Céu distante


Sofia Graça- enviado por